Deixar as contas em ordem, acredite, é possível. A receita inclui focar na sua meta e até mesmo repensar como é sua relação com o dinheiro.
As dívidas tiram o sono, minam as relações, destroem histórias. Implacáveis, elas entram em nossas casas sem pedir licença. E são muitas residências que recebem essa visita inesperada. Em agosto, 60% das famílias brasileiras estavam endividadas, mostrou uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
Ter uma conta para pagar, claro, não é problema, é rotina. O desafio é colocar tudo em ordem quando as dívidas superam os ganhos mensais. Esse cenário intimida, mas pode ser a porta de entrada para dar a volta por cima, rever a sua relação com o dinheiro, com o consumo e até se aproximar de novo de quem você ama.
Um exemplo? Há a história de um casal que se separou, em parte, por causa das dívidas e se uniu novamente também por conta delas – ou da tentativa de resolvê-las.
"O casal deu entrada na separação e foi obrigado a discutir as dívidas pendentes. Quando as coisas foram se resolvendo, as dívidas foram sendo pagas, eles se viram novamente apaixonados. No casamento, um culpava o outro pela situação financeira. Mas a conversa cauterizou toda a mágoa", conta o economista e professor universitário Antonio Marcus Machado.
A história é um bom exemplo de como uma conversa franca e aberta sobre a vida econômica
da casa pode ser a chave para sair da crise. Abrir
o jogo com a família, segundo Machado, é o primeiro passo para acertar as contas.
Do fundo do baú
Mas podemos ir mais longe para tentar romper com o endividamento. Como tudo na vida, a relação que temos com o dinheiro foi construída com base no que vimos e ouvimos desde a infância. Mudar esse quadro não é tarefa simples. Temos que, literalmente, desconstruir todo o aprendizado e tomar consciência da relação que temos com o dinheiro. A psicóloga especialista em terapia sistêmica familiar e de casais Jacqueline Kauffman conta uma história que ilustra bem como funciona esse processo.
"Tive uma paciente que também era psicóloga e se sentia muito constrangida quando precisava receber o dinheiro da consulta do paciente. Trabalhamos isso e percebemos que na infância ela era muito pobre e precisava chorar muito para ganhar algum dinheiro dos pais. Essa sensação ruim surgia todas as vezes que ela recebia dinheiro de alguém".
Depois de entender a relação com o dinheiro, é hora de se planejar. "Fazer planejamento é como fazer academia. É preciso ter foco, persistência e não desistir. É preciso traçar estratégias práticas".
Questione-se
Afinal, como me relaciono com o dinheiro e por que estou endividado? Para decifrar essa pergunta, uma boa forma é tentar responder às questões abaixo.
- Da minha infância, qual a primeira lembrança que tenho em relação ao dinheiro?
- Quais frases eu costumava ouvir em relação a ele ("dinheiro é sujo", "só quem trabalha o tempo todo tem dinheiro")?
- E hoje, quando penso em dinheiro, qual é a sensação que tenho?
- Para onde está indo o meu dinheiro?
- Por que vivo razoavelmente bem, mas existe um sentimento de frustração por eu não conseguir realizar os sonhos?
- Por que o dinheiro que ganho não satisfaz às minhas necessidades?
- Tenho uma poupança que não tenho coragem de mexer, mas enquanto isso estou atolado de dívidas? O que explica isso?
Respire fundo e mãos à obra
O que fazer quando já está endividado
- Conhecer a realidade da situação.
- Fazer planilhas de gastos, no Excel ou mesmo no caderno.
- Definir metas a serem alcançadas: reduzir a dívida em 10% todo mês, por exemplo.
- Não desistir e manter a programação definida.
- Permitir que as pessoas que estão ajudando ou colaborando de alguma maneira tenham boa visão da evolução do tratamento da dívida.
- Estabelecer resultados esperados anualmente.
Se verificou que há endividamento crescente
- Corte os cartões de crédito. Cancele-os ou reduza o limite.
- Converse com os credores. Tente negociar forma de pagamento sustentável.
- Lembre que resolver situações assim demora bastante na maioria das vezes. Por isso, mantenha-se calmo, lúcido e consciente.
- Tente melhorar a situação de seu orçamento.
- Procure ganhar mais: trabalhos manuais nas folgas do trabalho. Trabalhos de fim de semana, horas extras.
- Venda coisas desnecessárias. Apure dinheiro em algo que não é muito útil no momento. Combata o supérfluo.
- Não use cheque. É uma tentação.
- Divida suas dúvidas e busque apoio da família. Por vergonha, há uma tendência de o devedor esconder a dívida.
Se a situação é grave demais
- Cancele a TV paga. Reduza o gasto com internet.
- Troque de carro (por um de menor valor) ou mude de transporte.
- Mude de residência se o aluguel for alto para sua situação de desequilíbrio financeiro. Se comprou casa e não aguenta pagar, tente vendê-la. Persistir nessa impossibilidade pode levar à perda da casa.
- Priorize o telefone fixo. Apenas um na residência. Reduza muito o gasto com celular.
- Alimente-se em casa ou leve alimento para o trabalho, feito em casa. Tem boa qualidade e o custo é menor. Restaurantes são ótimos, mas tem o deslocamento, os 10% e o refrigerante ou o suco.
Análise
Filhos do Brasil
É possível admitir que no Brasil coexistam dois endividamentos que se autoalimentam. O do governo e o do cidadão. Desde a década de 60, com a construção de Brasília e algumas iniciativas de industrialização do país, longos períodos mostram que o governo gastou mais do que arrecadou. Para financiar esse déficit, ou seja, cobrir o rombo financeiro, o governo encontrou na emissão de moeda uma solução. Da mesma maneira como uma pessoa emite um cheque para 30 dias ou mais, ou usa o cartão de crédito quando não tem dinheiro em conta. O problema do governo é gerar inflação, prejudicando a camada mais pobre, e o das pessoas é ter o cheque devolvido ou ficar pagando o mínimo da fatura do cartão. Outra maneira encontrada pelo governo, a partir de 1964, foi vender títulos do Tesouro Nacional, ou seja, pegar dinheiro emprestado com os cidadãos e os bancos comerciais. O problema do governo foi aumentar a dívida pública, pagando juros altos como fator de atração. Com o cidadão ocorre algo parecido. Ele também pode achar interessante pedir dinheiro emprestado. Da mesma forma que o governo, entra em uma ciranda financeira que leva longo tempo para ser interrompida. No caso do governo quem sofre é a população, no caso do cidadão é a família. Assim, pode-se admitir que o senso de endividamento do brasileiro tenha a ver com a irresponsabilidade do governo com suas contas. Com isso, deixou de oferecer serviços de qualidade como educação, saúde e transporte, levando o cidadão a incluir no orçamento, além dos impostos, gastos com escolas particulares, planos de saúde e carro próprio.
Fonte : gazetaonline.globo.com
